Proposta apresentada como “ajuste financeiro” reacende o debate sobre o papel do Estado, o futuro do serviço postal e os riscos de uma privatização silenciosa.
Uma matéria publicada pelo UOL, assinada pelo colunista Júlio Wiziack, revelou que os ministérios da Fazenda e das Comunicações avaliam compensar financeiramente os Correios pelo déficit da operação de entrega de cartas — serviço que, segundo o texto, estaria “em desuso no mundo” e “só dá prejuízo”.
À primeira vista, a proposta parece técnica e até razoável. Mas uma análise mais atenta mostra que o debate vai muito além de números: trata-se de uma disputa sobre o papel do Estado, o futuro dos Correios e os direitos da população e dos trabalhadores.
Entrega de cartas não é “negócio”, é obrigação constitucional
A própria matéria reconhece um ponto central:
a Constituição Federal obriga a União a manter o serviço postal em regime de monopólio, por meio dos Correios.
O problema é o enquadramento adotado. Ao tratar a entrega de cartas como um “negócio deficitário”, o texto desloca a discussão do campo do direito público para a lógica do mercado.
Serviço postal não existe para gerar lucro, assim como saúde, educação ou segurança pública. Ele existe para:
- garantir integração nacional
- assegurar comunicação em todo o território
- manter a presença do Estado onde o mercado não quer chegar
Chamar isso de “prejuízo” é, no mínimo, uma distorção conceitual.
R$ 4 bilhões: custo ou investimento público?
Segundo o UOL, o custo fixo anual da operação de cartas gira em torno de R$ 4 bilhões. O número é apresentado como um “peso” para a estatal, sem qualquer contextualização.
O que não aparece no debate:
- quanto custaria ao Estado contratar empresas privadas para atender todo o país
- quanto a rede dos Correios economiza em políticas públicas
- o impacto social de encerrar ou precarizar esse serviço
Na prática, o valor não representa um rombo, mas o custo de uma política pública essencial, prevista na Constituição.
Correios “enxutos” e focados no lucro: o alerta sindical
Um trecho da matéria acende o sinal vermelho:
“a empresa poderá se livrar de um peso e ser lucrativa com o que hoje dá dinheiro: as entregas.”
Essa frase revela a lógica por trás do debate.
A ideia implícita é separar:
- cartas → obrigação social (que o Estado banca ou abandona)
- encomendas → atividade lucrativa, guiada pelo mercado
Esse modelo já foi usado em outros países e costuma ser o primeiro passo para o fatiamento e a privatização indireta das estatais.
Do ponto de vista sindical, o risco é claro:
- descaracterização dos Correios como empresa pública
- pressão por metas, terceirização e precarização
- redução de direitos e instabilidade para os trabalhadores
O exemplo da Dinamarca não se aplica ao Brasil
A matéria cita a Dinamarca, que encerrou o serviço postal público após quatro séculos, como exemplo de tendência global. Mas a comparação ignora diferenças fundamentais.
A Dinamarca:
- é um país pequeno
- altamente digitalizado
- com território concentrado
O Brasil é o oposto:
- dimensões continentais
- desigualdade social profunda
- regiões onde o Correios é a única presença do Estado
Importar esse modelo significaria:
- cartas mais caras
- exclusão de milhões de brasileiros
- abandono de comunidades inteiras
O que está realmente em disputa
O debate não é se a entrega de cartas “dá lucro”.
A questão central é se o Estado brasileiro continuará cumprindo sua função social.
Financiar o serviço postal universal:
- não é socorrer prejuízo
- é cumprir a Constituição
- é garantir soberania e integração nacional
Transformar esse dever em problema contábil é abrir caminho para:
- retirada gradual do Estado
- enfraquecimento dos Correios
- avanço de uma privatização silenciosa
Quando o direito vira custo, o desmonte vira política
A matéria do UOL não é apenas informativa. Ela ajuda a construir uma narrativa perigosa: a de que o serviço postal público é ultrapassado e inviável.
Para os trabalhadores dos Correios e para a sociedade, o alerta é claro:
quando o direito vira “custo”, o próximo passo costuma ser o desmonte.
Defender os Correios públicos, integrados e universais não é saudosismo.
É defesa de direitos, de soberania e do papel do Estado brasileiro.
✍️ Por Junior Solid
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