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Entrega Rápida ou Entrega Bem Feita? O Debate Sobre a Última Milha que Ninguém Quer Fazer

Pacotes jogados em quintais, deixados em calçadas, entregas feitas de madrugada e fotos usadas como única comprovação. O que antes causava indignação parece estar se tornando normal na logística da última milha.

Quem compra pela internet provavelmente já passou por isso: a encomenda aparece como entregue, mas ninguém tocou a campainha. Em muitos casos, o pacote foi deixado atrás do portão, no quintal, na garagem ou em algum local improvisado.

Nas redes sociais, vídeos mostram entregadores organizando mercadorias em calçadas, arremessando encomendas para dentro de residências e correndo contra o relógio para cumprir metas cada vez maiores.

A pergunta é simples: estamos ficando mais eficientes ou apenas nos acostumando com um serviço de menor qualidade?


Quando a velocidade virou mais importante que a entrega

Nos últimos anos, a disputa entre plataformas de comércio eletrônico passou a ser baseada principalmente no prazo.

Entrega em 24 horas.

Entrega no mesmo dia.

Entrega em poucas horas.

Para alcançar esses resultados, muitas empresas transferiram a pressão operacional para a chamada última milha, a etapa final que leva a encomenda até a casa do cliente.

O problema é que rapidez e qualidade nem sempre caminham juntas.

Em muitos casos, o objetivo deixou de ser garantir o recebimento correto da encomenda e passou a ser apenas registrar a entrega no sistema.

O que os vídeos das redes sociais mostram

Não é difícil encontrar vídeos mostrando:

  • Encomendas separadas em calçadas;
  • Mercadorias expostas ao sol e à chuva;
  • Pacotes deixados em portões;
  • Objetos jogados por cima de muros;
  • Entregas realizadas durante a madrugada;
  • Fotos tiradas apenas para comprovar a baixa da entrega.

Claro que nem todos os profissionais trabalham dessa forma. Porém, quando situações semelhantes aparecem repetidamente nas redes sociais e na experiência de milhares de consumidores, fica difícil tratar tudo como casos isolados.

A diferença entre entregar no endereço e entregar para alguém

Durante décadas, os Correios construíram um modelo baseado na confirmação do recebimento.

Quando um carteiro entrega uma encomenda registrada, existe um procedimento.

O objetivo não é apenas chegar ao endereço.

O objetivo é identificar quem recebeu.

Essa lógica protege:

  • O cliente;
  • O trabalhador;
  • A empresa;
  • A própria encomenda.

Mesmo durante a pandemia, quando a assinatura física foi temporariamente suspensa para reduzir o contato, os Correios continuaram exigindo a identificação do recebedor e o registro da entrega.

Ou seja, o pacote não era simplesmente abandonado no local.

O cliente está mudando sua percepção

Muitos carteiros escutam diariamente frases como:

"Pode deixar no quintal."

"Pode jogar por cima do muro."

"Pode deixar atrás do portão."

Há alguns anos, esse tipo de situação geraria reclamação imediata.

Hoje, muitos consumidores passaram a considerar isso normal.

O motivo é simples: eles foram se acostumando ao modelo adotado por parte da logística privada.

O problema aparece quando algo dá errado.

Quando a encomenda desaparece.

Quando a chuva estraga o produto.

Quando alguém pega o pacote.

Quando a entrega vai parar na casa errada.

Nesses momentos, aquilo que parecia excesso de cuidado passa a fazer falta.

O conhecimento profissional também faz diferença

Outro aspecto pouco discutido é a qualificação.

Nos Correios, os trabalhadores recebem orientações, treinamentos, atualizações operacionais e procedimentos padronizados.

Existe uma cultura construída ao longo de décadas.

Já em parte da última milha privada, muitos entregadores atuam sob forte pressão por produtividade, frequentemente com remuneração ligada ao número de entregas realizadas.

O resultado é que a prioridade passa a ser quantidade.

E quando a quantidade se torna o principal indicador, a qualidade tende a perder espaço.

A pergunta que fica

Talvez o verdadeiro debate não seja sobre quem entrega mais rápido.

Talvez a discussão seja outra:

O que significa uma entrega de qualidade?

É apenas deixar a encomenda em algum lugar e registrar uma foto?

Ou é garantir que o objeto chegou efetivamente às mãos do destinatário?

Durante muitos anos, os Correios foram cobrados por seguir procedimentos de entrega. Hoje, uma parte do mercado parece estar ensinando os consumidores a aceitar práticas que antes seriam consideradas inadequadas.

A velocidade aumentou.

Mas será que a qualidade acompanhou esse crescimento?


✍️ Por Junior Solid

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