ACT 2026/2027 dos Correios começa com discurso de crise, mas trabalhadores cobram justiça nos cortes
Empresa diz que recuperação financeira continua, mas trabalhadores questionam por que os maiores sacrifícios seguem recaindo sobre a base operacional.
Os Correios e as federações deram início nesta terça-feira (14) às negociações do Acordo Coletivo de Trabalho (ACT) 2026/2027. Como já era esperado, a primeira reunião foi destinada à apresentação do cenário da empresa e do calendário das negociações.
No comunicado divulgado após o encontro, os Correios reforçam que a empresa ainda enfrenta dificuldades financeiras, apesar da melhora dos indicadores operacionais. Também afirmam que seguem adotando medidas para ampliar receitas, reduzir despesas e recuperar sua capacidade de investimento.
Até aqui, nenhuma novidade.
Quem trabalha nos Correios já ouve esse discurso há anos.
A diferença é que, enquanto a empresa fala em recuperação, os trabalhadores convivem diariamente com redução de equipes, aumento da carga de trabalho e mudanças que atingem principalmente quem está na operação.
A crise existe. Mas ela não pode servir para justificar tudo.
Ninguém pode negar que os Correios enfrentam dificuldades financeiras.
A própria empresa reconhece queda nas receitas, aumento das despesas e a necessidade de buscar novos negócios. Também lembra do empréstimo contratado com garantia da União e das medidas de reestruturação em andamento.
O problema é que, quando chega a hora de cortar gastos, a impressão de muitos empregados é sempre a mesma:
quem paga a conta é a base.
Enquanto isso, a empresa segue com:
- Programa de Demissão Voluntária (PDV);
- fechamento de agências;
- redução de distritos;
- reorganização da distribuição;
- aumento da sobrecarga de trabalho;
- falta de reposição de carteiros e atendentes.
É justamente quem coloca a empresa para funcionar todos os dias que sente primeiro os efeitos dessas decisões.
A operação melhorou. Os próprios Correios reconhecem isso.
Um trecho do comunicado chama atenção.
Os Correios afirmam que os indicadores operacionais melhoraram nos últimos meses.
Essa melhora não aconteceu por acaso.
Ela foi construída por carteiros, atendentes, motoristas, OTTs e demais trabalhadores que continuam fazendo seu serviço mesmo com menos colegas, mais pressão e estruturas cada vez mais enxutas.
Se a operação melhorou, é justo perguntar:
quem fez essa melhora acontecer?
Porque não foram os relatórios.
Não foram as planilhas.
Foi o trabalhador que continua saindo para entregar cartas e encomendas, atender clientes e manter a empresa funcionando.
Se todos precisam contribuir, por que o peso recai sempre sobre a operação?
Esse talvez seja o principal debate desta campanha salarial.
Se os Correios precisam reduzir despesas, é natural que os trabalhadores perguntem:
A reestruturação está alcançando todas as áreas da empresa da mesma forma?
O Portal da Transparência permite consultar remunerações e mostra que existem cargos com salários bastante elevados na estrutura administrativa e de gestão.
Por isso, muitos empregados questionam se o esforço para reduzir custos está sendo dividido de forma equilibrada ou se continua concentrado principalmente nas áreas operacionais.
Outro ponto que chama atenção é o perfil do PDV.
Na prática, quem mais demonstra interesse ou reúne condições para aderir ao programa são justamente carteiros e atendentes, profissionais com muitos anos de empresa e que acumulam experiência essencial para a operação.
A pergunta que fica é simples:
faz sentido perder justamente quem conhece o serviço e mantém os Correios funcionando diariamente?
Economia não pode significar enfraquecer quem gera receita
Os Correios vivem da confiança da população e da qualidade dos serviços prestados.
Sem atendimento.Sem distribuição.
Sem coleta.
Sem logística.
Não existe empresa pública de Correios.
Por isso, reduzir custos é importante. Mas reduzir justamente a mão de obra da atividade-fim pode gerar um efeito contrário: mais sobrecarga, pior atendimento, aumento dos afastamentos e perda de qualidade nos serviços.
Economizar não pode significar enfraquecer quem sustenta a empresa todos os dias.
Nossa reflexão
A primeira reunião do ACT 2026/2027 mostrou qual será o discurso dos Correios durante a negociação: a empresa ainda enfrenta dificuldades e precisa continuar sua recuperação financeira.
Os trabalhadores entendem essa realidade.
O que eles não aceitam é que a solução continue passando, quase sempre, pelos mesmos caminhos: menos empregados na operação, mais trabalho para quem fica e incertezas sobre o futuro.
Se todos precisam ajudar os Correios a superar esse momento, o esforço também precisa ser compartilhado de forma justa.
Porque a pergunta que ecoa nas unidades de todo o país continua sem resposta:
Por que os maiores sacrifícios parecem recair sempre sobre quem está na linha de frente, enquanto a categoria ainda espera uma discussão mais ampla sobre os custos da estrutura administrativa e os critérios adotados pela gestão para equilibrar as contas?
O ACT 2026/2027 não será apenas uma negociação de salários e benefícios. Será também uma oportunidade para discutir qual modelo de empresa os Correios querem construir: um modelo que fortaleça a atividade-fim ou que continue exigindo cada vez mais de quem já trabalha no limite.
✍️ Por Junior Solid
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