A trajetória financeira dos Correios ao longo da última década revela um quadro de instabilidade crescente, que se transforma, a partir de 2022, em uma crise estrutural profunda. Os números mais recentes confirmam que a empresa estatal atravessa o pior momento de sua história, resultado de decisões estratégicas equivocadas, fragilidades de gestão e políticas deliberadas de enfraquecimento institucional.
Entre 2011 e 2014, a empresa ainda apresentava resultados positivos pontuais, embora já houvesse sinais de desequilíbrio. A partir de 2015, inicia-se uma sequência de resultados negativos que se estende de forma quase contínua até o presente, com exceções artificiais em 2020 e 2021, fortemente influenciadas por fatores extraordinários.
O lucro registrado em 2020, por exemplo, não refletiu ganho operacional real, mas foi consequência direta de cortes severos em salários, direitos e benefícios dos trabalhadores, viabilizados à época com respaldo do Judiciário. Já o resultado positivo de 2021 decorreu de eventos não recorrentes, como reversões de provisões atuariais, programas de desligamento voluntário e ajustes contábeis, sem qualquer sustentabilidade no médio ou longo prazo.
Prejuízo dispara em 2025
A situação se deteriora de forma acelerada em 2024 e explode em 2025. Apenas nos nove primeiros meses de 2025, o prejuízo acumulado já alcança R$ 6,057 bilhões, quase três vezes superior ao registrado no mesmo período do ano anterior. Somente no terceiro trimestre de 2025, as perdas somaram R$ 1,69 bilhão, evidenciando uma curva de agravamento contínuo.
Esse cenário foi amplamente noticiado pela grande imprensa em novembro de 2025, quando veículos como G1 e UOL apontaram que os Correios atingiram recordes históricos de prejuízo semestral, confirmando a aceleração de um colapso financeiro anunciado.
Indicadores críticos do 3º trimestre de 2025
Os dados financeiros mais recentes escancaram a gravidade do quadro:
- O patrimônio líquido tornou-se negativo em R$ 10,41 bilhões, uma deterioração de mais de R$ 6 bilhões em apenas nove meses;
- O prejuízo acumulado no ano chega a R$ 6,057 bilhões;
- O volume de empréstimos e financiamentos saltou para R$ 1,921 bilhão, crescimento de 249% em relação a dezembro de 2024, incluindo um empréstimo de R$ 1,8 bilhão junto a um sindicato de credores, com custo anual estimado em 25,67%;
- Precatórios e Requisições de Pequeno Valor somam R$ 2,479 bilhões;
- Provisões para ações judiciais atingem R$ 2,521 bilhões, enquanto quase 30 mil processos não provisionados representam um risco adicional superior a R$ 3,4 bilhões;
- As despesas administrativas e gerais cresceram 53% em relação a 2024, chegando a R$ 4,819 bilhões em nove meses.
Auditoria confirma fragilidade contábil
A auditoria independente das demonstrações financeiras de 2024 aprofundou ainda mais o alerta. O relatório emitido em abril de 2025 trouxe uma opinião com ressalvas, indicando falhas relevantes nos controles internos e na mensuração de passivos.
Entre os principais pontos críticos estão:
- Provisões judiciais superiores a R$ 2,7 bilhões, com critérios frágeis de estimativa, o que pode significar que o passivo real seja ainda maior;
- Déficit atuarial do Postalis (plano de pensão de benefício definido) estimado em R$ 7,8 bilhões, calculado com premissas controversas, como o uso de taxa de desconto baseada em títulos privados, prática incomum no Brasil;
- Reconhecimento de obrigação atuarial do Postal Saúde em R$ 2,29 bilhões, apesar de disputas judiciais sobre a responsabilidade da empresa nesse custeio;
- Créditos tributários a recuperar, superiores a R$ 1,4 bilhão, cuja efetivação depende de análise da Receita Federal;
- Crédito de CSLL diferida condicionado à geração futura de lucros, hipótese considerada frágil diante da sequência prolongada de prejuízos.
Decisões políticas e estratégicas aprofundaram a crise
O estudo que embasa esses dados aponta que os prejuízos não são fruto apenas de fatores conjunturais. Há elementos estruturais e decisões políticas que contribuíram decisivamente para esse cenário, entre eles:
- Uma estratégia corporativa orientada ao enfraquecimento da empresa, com perda de qualidade dos serviços e consequente evasão de contratos, criando ambiente favorável à privatização;
- Repasses elevados de dividendos ao governo federal mesmo em períodos de fragilidade financeira, comprometendo o caixa e os investimentos. Entre 2007 e 2013, esses repasses somaram entre R$ 4 e 6 bilhões, com destaque para 2011, 2012 e 2013, além de novo repasse em 2021 após um lucro pontual;
- Mudanças contábeis que passaram a reconhecer passivos atuariais de forma mais agressiva, ampliando despesas contábeis sem impacto imediato no caixa;
- Histórico de subprovisionamento de benefícios pós-emprego, cujos déficits bilionários agora recaem sobre os resultados;
- Redução do efetivo e enxugamento da estrutura sem ganhos reais de eficiência operacional;
- Congelamento ou reajustes insuficientes nas tarifas de serviços universais, como cartas simples e encomendas econômicas, especialmente entre 2015 e 2023, gerando forte defasagem em relação à inflação.
Alerta máximo: falhas contábeis e risco institucional
A gravidade da situação ganhou contornos ainda mais preocupantes com a revelação, feita pelo TCU em novembro de 2025, de que os Correios teriam omitido cerca de R$ 1 bilhão em prejuízos no exercício de 2023. O tribunal também apontou que a empresa não dispõe de sistemas adequados para calcular com precisão seu passivo judicial, o que compromete seriamente a transparência e a governança.
Diante desse conjunto de fatores, os prejuízos registrados a partir de 2022 não podem ser tratados como eventos isolados. Eles representam o desfecho de uma sequência de decisões acumuladas ao longo de mais de uma década, que fragilizaram a empresa pública, penalizaram os trabalhadores e colocaram em risco a continuidade do serviço postal universal.
✍️ Por Junior Solid
Colaborador: Alexandre M Junior (Correios - O que você precisa saber sobre a crise)
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