Modelo implantado desde 2014 não trouxe eficiência, mas normalizou déficit de pessoal, sobrecarga física e enfraquecimento do serviço postal universal
A Distribuição Domiciliária Alternada (DDA), implementada nacionalmente nos Correios a partir de 2014, consolidou-se não como um avanço técnico-operacional, mas como um mecanismo permanente de gestão da escassez de trabalhadores. O modelo transformou a redução do quadro funcional em suposta “eficiência administrativa”, institucionalizando condições precárias de trabalho e operando com déficit crônico de pessoal.
Na prática, a DDA não resolveu problemas estruturais. Pelo contrário: normalizou a precarização, deslocando o debate da falta de trabalhadores para uma falsa lógica de otimização territorial, que penalizou diretamente os carteiros e enfraqueceu o serviço postal universal.
Da escassez ao modelo permanente: como a DDA foi construída
A gênese da DDA está diretamente ligada ao desmonte acelerado do quadro funcional dos Correios. Entre 2014 e 2025, mais de 50 mil postos de trabalho foram eliminados, em grande parte por meio de PDVs e PDIs. O efetivo, que ultrapassava 130 mil trabalhadores, foi reduzido para cerca de 80 mil.
Diante desse cenário, a DDA surgiu não para melhorar a qualidade do serviço, mas para administrar estruturalmente a escassez criada pela própria gestão.
A reengenharia territorial promovida pelo modelo aprofundou distorções históricas. Nas áreas rurais, onde as rotas já eram extensas, pouco se alterou. Já nos centros urbanos — tradicionalmente com distritos mais compactos, de até 5 km, porém com alta densidade de correspondência e objetos registrados — os distritos foram ampliados de forma abrupta, chegando teoricamente a até 8 km.
Essa ampliação ignorou completamente:
- as condições topográficas (aclives, longas ladeiras);
- o envelhecimento do quadro funcional;
- as limitações físicas dos carteiros pedestres;
- a complexidade real das áreas urbanas.
Menos peso, mais desgaste: o paradoxo imposto aos carteiros
Um dos aspectos mais contraditórios do modelo é o chamado “ganho de eficiência” baseado na redução da carga transportada. De fato, houve diminuição no volume de cartas, resultado tanto do avanço tecnológico quanto, principalmente, do sucateamento progressivo do serviço postal.
No entanto, essa redução não significou menos esforço. Pelo contrário.
Os carteiros passaram a percorrer distâncias muito maiores, redistribuindo o esforço físico para caminhadas mais longas e desgastantes. O resultado foi um aumento significativo do desgaste físico, especialmente entre trabalhadores mais antigos, sem qualquer compensação real nas condições de trabalho.
Essa lógica contribuiu para um círculo vicioso: a degradação operacional acelerou o abandono do serviço postal tradicional, posteriormente justificado pela gestão como uma suposta “queda natural da demanda”.
A falsa eficiência: quando os dados desmontam o discurso oficial
A narrativa institucional atribui a queda de 28% na receita do serviço postal entre 2012 e 2024 exclusivamente à evolução tecnológica. No entanto, os dados mostram outra realidade.
Há uma correlação temporal clara entre a expansão da DDA e a aceleração da queda da receita, especialmente no período entre 2014 e 2018. Além disso, ocorreu uma mudança deliberada de prioridade estratégica: enquanto o serviço postal definhava, os investimentos migravam para o segmento de encomendas, que passou a representar 63% da receita em 2024.
A DDA, portanto, não surgiu para responder a demandas orgânicas da sociedade, mas para viabilizar cortes orçamentários e desviar a finalidade pública dos Correios, privilegiando o segmento competitivo em detrimento do serviço postal universal.
A única solução estrutural: recomposição do quadro funcional
A experiência histórica dos Correios demonstra que não existe modelo operacional sustentável sem trabalhadores em número suficiente. O concurso público de 2011 é prova disso, ao repor 9.190 postos de trabalho e melhorar temporariamente as condições operacionais.
Em 2024, a urgência é ainda maior. A solução passa, necessariamente, pela:
- convocação massiva dos aprovados, incluindo o cadastro reserva;
- recomposição dos postos eliminados desde 2014;
- restabelecimento de condições mínimas para a prestação do serviço postal.
Trata-se de uma medida estrutural, não paliativa.
Sem trabalhadores, não há serviço postal
A DDA sintetiza a contradição central dos Correios nos últimos anos: transformou um direito constitucional da sociedade em serviço secundário. Seu fracasso operacional comprova que nenhum modelo, por mais “inovador” que se apresente no discurso, funciona sem trabalhadores suficientes.
A convocação do cadastro reserva não é um favor, nem uma concessão. É a única resposta concreta contra um sistema que confunde redução de direitos com progresso.
Reconstruir o serviço postal exige reconhecer uma verdade básica: tecnologia e inovação são complementos — nunca substitutos — do trabalho humano.
✍️ Por Junior Solid
Colaborador: Alexandre M Junior (Correios - O que você precisa saber sobre a crise)
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