Dados obtidos via LAI revelam substituição deliberada da rede pública por unidades terceirizadas, com perda de receita, aumento de custos e prejuízo à função social da empresa
As respostas oficiais obtidas por meio da Lei de Acesso à Informação (LAI) confirmam um processo contínuo e estruturado de redução da rede própria de atendimento dos Correios e sua substituição por agências operadas por terceiros. Longe de ser um ajuste pontual, os dados evidenciam uma mudança de modelo, com impactos diretos na captação de receita, na cobertura social e na sustentabilidade do serviço postal universal.
Segundo planilha oficial fornecida pela própria empresa, ao menos 255 agências próprias (ACs) foram fechadas entre 2010 e 2025, com registro nominal de cada unidade e data de encerramento. O encolhimento da rede estatal compromete especialmente regiões onde o serviço público é o único meio de acesso da população aos serviços postais, mas não se restringe a áreas deficitárias.
Fechamentos atingem capitais e regiões estratégicas
Os dados revelam que o fechamento de agências próprias também ocorreu em capitais e grandes centros urbanos, como São Paulo, Rio de Janeiro, Belo Horizonte, Recife e Porto Alegre, além de cidades médias com elevada importância logística. Esse padrão desmonta o argumento de que os encerramentos ocorreriam apenas em localidades pouco rentáveis.
Ao contrário, indica uma reestruturação generalizada da malha estatal, inclusive em regiões estratégicas tanto para a geração de receita quanto para o cumprimento da função social dos Correios.
Mais de 6 mil agências terceirizadas em operação
Paralelamente ao fechamento das agências próprias, outra planilha obtida junto ao Serviço de Informação ao Cidadão (SIC) mostra que os Correios mantêm atualmente mais de 6 mil agências terceirizadas ativas em todo o país. Essa rede inclui agências franqueadas (AGFs), comunitárias, mistas e parcerias com prefeituras, operando sob contratos comissionados ou convênios locais.
A análise cruzada dos dados confirma uma política institucional deliberada de substituição da rede pública por estruturas privadas, caracterizada por:
- Encerramento contínuo de agências próprias, inclusive em áreas densamente povoadas;
- Crescimento expressivo da rede terceirizada, sem evidências de melhoria da qualidade ou aumento de arrecadação;
- Redução da captação direta de receita pela estatal, uma vez que parte significativa do faturamento passa a ser repassada a operadores privados na forma de comissões.
Perda de receita e ameaça ao subsídio cruzado
Quanto menor o número de agências próprias, maior é a transferência de receita pública para agentes privados. Esse movimento compromete o principal pilar de sustentação dos Correios: o subsídio cruzado, no qual localidades lucrativas financiam aquelas que operam com prejuízo, garantindo a universalização do serviço.
Com a entrada de operadores privados justamente nas regiões de maior fluxo financeiro, a estatal perde capacidade de financiar sua presença em áreas menos rentáveis. O resultado é uma degradação progressiva da qualidade do serviço e o enfraquecimento do papel social dos Correios como empresa pública.
Custo bilionário da terceirização
Os impactos financeiros desse modelo são expressivos. As projeções indicam que os custos com agências franqueadas e privadas alcançam cerca de R$ 1,7 bilhão anuais em 2025. Desde 2020, os relatórios contábeis dos Correios evidenciam com mais clareza o peso crescente dessas despesas.
Custos com agências não próprias:
- 2020: R$ 1,975 bilhão
- 2021: R$ 2,256 bilhões
- 2022: R$ 1,957 bilhão
- 2023: R$ 1,699 bilhão
- 2024: R$ 1,742 bilhão
- 2025 (até 9 meses): R$ 1,377 bilhão
Os dados de 2025 mostram que 71% das localidades operam com prejuízo sob critérios de universalização. Esse índice sobe para 74% com a inclusão da estrutura administrativa e chega a 89% quando considerados todos os custos.
Atualização do 3º trimestre de 2025
As demonstrações contábeis do 3º trimestre de 2025 confirmam a manutenção do modelo de terceirização, com projeção anualizada de aproximadamente R$ 1,83 bilhão em despesas com unidades privadas. Mesmo diante de um prejuízo acumulado de R$ 6,057 bilhões em apenas nove meses, os repasses a operadores privados seguem como despesa fixa relevante.
A nota 6.1 do relatório contábil revela ainda que agências terceirizadas devem R$ 145,9 milhões aos Correios por serviços faturados, indicando tensões no fluxo financeiro dessa rede.
Dois impactos centrais para a estatal
Os dados permitem identificar dois efeitos principais da expansão das agências privadas:
- Redução da receita líquida da ECT, já que parte da arrecadação bruta é repassada aos operadores privados;
- Aumento de custos fixos, com contratos mantidos mesmo em cenários de prejuízo operacional.
Esse conjunto de fatores reforça a tese de que o enfraquecimento da estrutura própria dos Correios comprometeu sua capacidade operacional e contribuiu para o agravamento da crise financeira a partir de 2022.
Decisões deliberadas e efeitos visíveis
Em regiões como a zona sul do Rio de Janeiro, historicamente marcada por alto fluxo postal, o fechamento de agências próprias deixou espaços rapidamente ocupados por agências privadas ou por concorrentes. Sob o argumento do “sombreamento”, decisões foram tomadas de forma deliberada, resultando na retirada de receita dos cofres da estatal e na transferência contínua de recursos públicos para a iniciativa privada.
Os dados oficiais desmontam a narrativa de eficiência e mostram que a terceirização, longe de resolver os problemas dos Correios, fragiliza a empresa, ameaça o serviço postal universal e aprofunda a crise financeira.
✍️ Por Junior Solid
Colaborador: Alexandre M Junior (Correios - O que você precisa saber sobre a crise)
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