Adicional de Penosidade: direito constitucional ignorado pode beneficiar carteiros dos Correios
Previsto na Constituição há mais de 35 anos, o adicional nunca foi regulamentado — e pode se tornar uma das maiores disputas trabalhistas dos próximos anos.
O Adicional de Penosidade nos Correios pode deixar de ser apenas um direito esquecido na Constituição e se transformar em uma das pautas trabalhistas mais explosivas do país. Previsto no artigo 7º da Constituição Federal do Brasil, o benefício nunca foi regulamentado pelo Congresso. Agora, com discussões envolvendo o Supremo Tribunal Federal e projetos de lei em tramitação, a categoria dos carteiros volta a questionar: quem trabalha sob sol, chuva, peso excessivo e pressão diária não deveria receber por isso?
O Adicional de Penosidade é um dos direitos trabalhistas mais esquecidos da legislação brasileira. Previsto na Constituição Federal, ele nunca foi regulamentado por lei — o que impede sua aplicação prática.
Para os carteiros dos Correios, que enfrentam longas caminhadas, exposição ao sol e à chuva, peso excessivo e áreas de risco, o debate volta a ganhar força diante de discussões no Congresso e no Judiciário.
Mas afinal: o adicional de penosidade vai sair do papel? Existe prazo do STF? O AADC substitui esse direito?
O que é o Adicional de Penosidade?
O direito está previsto no artigo 7º, inciso XXIII, da Constituição Federal do Brasil, que garante aos trabalhadores:
“adicional de remuneração para as atividades penosas, insalubres ou perigosas, na forma da lei”.
A diferença é que insalubridade e periculosidade foram regulamentadas. Já a penosidade nunca recebeu lei específica.
Sem regulamentação:
- não há definição oficial do que é trabalho penoso;
- não existe percentual estabelecido;
- não há obrigação legal automática de pagamento;
- a Justiça do Trabalho encontra limites para conceder o direito.
Ou seja: o direito existe no papel, mas não é aplicado na prática.
Carteiros exercem atividade penosa?
Do ponto de vista fático, a atividade de distribuição reúne vários elementos clássicos de penosidade:
- Caminhadas médias de 10 a 15 km por dia;
- Carregamento de mochilas e objetos pesados;
- Exposição contínua ao sol, chuva e poluição;
- Pressão por metas e prazos;
- Atuação em áreas com alto índice de violência.
Diferentemente da insalubridade (agentes químicos/biológicos) e da periculosidade (risco iminente de morte), a penosidade envolve desgaste físico e psicológico intenso e contínuo.
É justamente nesse ponto que sindicatos defendem que a categoria se enquadra perfeitamente no conceito constitucional.
O STF deu prazo para regulamentação?
O debate ganhou força após discussões no Supremo Tribunal Federal sobre a chamada “mora legislativa” — quando o Congresso demora excessivamente para regulamentar um direito previsto na Constituição.
Há sinalizações jurídicas de que o STF pode reconhecer formalmente a omissão do Legislativo.
Porém, é importante esclarecer: até o momento, não há decisão definitiva fixando automaticamente um percentual ou determinando pagamento imediato caso o Congresso não regulamente.
O que existe é:
- reconhecimento da ausência de regulamentação;
- possibilidade futura de o STF pressionar o Congresso;
- discussão sobre eventual atuação judicial caso a omissão persista.
Criar expectativa de pagamento automático em 2026, neste momento, seria precipitado.
Projetos de Lei: o que está parado no Congresso
Há propostas em tramitação na Câmara dos Deputados, como o PL 4391/2023 e outros textos semelhantes, que sugerem percentuais entre 10% e 30% sobre o salário-base.
O problema central é político e financeiro.
Se aprovado de forma ampla, o adicional impactaria:
- trabalhadores da limpeza urbana;
- profissionais da saúde;
- operários;
- trabalhadores externos;
- carteiros;
- diversas categorias do serviço público.
Nos Correios, o impacto seria milionário — ou até bilionário — dependendo da abrangência e possibilidade de retroatividade.
Por isso, há resistência:
- do Executivo (impacto fiscal);
- das empresas estatais;
- do setor empresarial privado.
AADC substitui o Adicional de Penosidade?
Aqui está um dos pontos centrais da disputa sindical.
O AADC (Adicional de Atividade de Distribuição e Coleta):
- é previsto em norma interna e no Acordo Coletivo;
- não é adicional constitucional;
- pode ser alterado por negociação;
- não tem natureza idêntica à penosidade.
Já o Adicional de Penosidade, se regulamentado:
- teria base constitucional;
- poderia repercutir em férias, 13º salário, FGTS;
- poderia ser cumulativo com outros adicionais (dependendo da lei).
A tese empresarial costuma afirmar que o AADC já compensa o desgaste da função.
A tese sindical sustenta que:
O AADC é uma gratificação contratual. A penosidade é um direito constitucional autônomo.
Essa diferença é estratégica e pode gerar disputas judiciais futuras.
O verdadeiro impasse: custo ou direito?
A ausência de regulamentação há mais de 35 anos revela um conflito estrutural:
✔️ De um lado, um direito social previsto na Constituição.
✔️ Do outro, o impacto financeiro que sua aplicação causaria.
No caso dos Correios, o debate ocorre em meio a:
- discussões sobre modernização;
- pressão por produtividade;
- ameaça recorrente de sucateamento;
- campanhas salariais cada vez mais restritivas.
Regular o adicional significaria reconhecer oficialmente que milhares de trabalhadores exercem atividades com desgaste extremo permanente.
O que pode acontecer nos próximos anos?
Existem três cenários possíveis:
1. Regulamentação pelo Congresso
Define critérios objetivos e percentual fixo.
2. Pressão do STF
A Corte pode reconhecer formalmente a omissão e determinar providências.
3. Negociação via ACT ou judicialização setorial
Sindicatos podem buscar reconhecimento específico para determinadas categorias.
Nenhum desses cenários é automático.
Todos dependem de mobilização política e sindical organizada.
Direito esquecido ou pauta estratégica?
O Adicional de Penosidade é hoje um direito constitucional não regulamentado que poderia impactar diretamente os carteiros dos Correios.
Mas é preciso separar:
- expectativa jurídica,
- realidade legislativa,
- e estratégia sindical.
Sem pressão organizada, o tema tende a permanecer parado.
Com articulação nacional e mobilização real, pode se tornar uma das pautas centrais das próximas campanhas salariais.
A pergunta que fica para a categoria é:
O adicional de penosidade será tratado como promessa futura ou como bandeira concreta de luta?
✍️ Por Junior Solid
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