Levantamentos baseados em análises sindicais consistentes indicam que grande parte das decisões adotadas pela alta direção dos Correios ao longo da última década não ocorreram de forma isolada ou meramente administrativa. Trata-se, segundo essas fontes, de um processo contínuo de enfraquecimento institucional, conduzido de modo a fragilizar a empresa pública e abrir caminho para discursos e projetos privatistas.
Os sucessivos Programas de Desligamento Voluntário e Incentivado não se limitaram a oferecer alternativas aos trabalhadores. Diversos relatos apontam metas de redução de pessoal e práticas de pressão psicológica direcionadas, especialmente contra empregados mais antigos e experientes. O resultado foi a perda acelerada de conhecimento técnico e operacional, justamente em áreas estratégicas da empresa.
Paralelamente, avançou a substituição de unidades próprias por agências franqueadas, transferindo parte significativa da arrecadação pública para operadores privados e reduzindo o controle direto da estatal sobre sua própria rede. A ampliação da terceirização, combinada com a retirada gradual de direitos históricos, elevou a carga de trabalho sobre os empregados remanescentes, agravou quadros de adoecimento e levou diversos centros operacionais a situações próximas do colapso.
Trabalhadores exaustos sustentam a empresa
Apesar desse cenário adverso, os Correios seguem funcionando graças ao esforço extremo de um quadro de pessoal cada vez mais reduzido. O efetivo atual é insuficiente para a dimensão territorial do país, envelhecido e com altos índices de afastamentos por saúde. Esse desgaste impacta diretamente a qualidade do serviço prestado à população, a produtividade interna e até mesmo o equilíbrio financeiro do plano de saúde da categoria.
Ainda assim, são esses trabalhadores que mantêm a estrutura mínima da empresa pública em funcionamento, mesmo diante da falta de reposição e da sobrecarga permanente.
Concurso de 2024: uma encruzilhada decisiva
Sem a convocação dos aprovados no concurso público realizado em 2024 — inclusive do cadastro reserva —, os Correios caminham para uma situação de inviabilidade operacional no curto prazo. A recomposição do quadro funcional deixou de ser uma medida administrativa desejável e passou a ser condição essencial para a sobrevivência institucional da empresa.
Além de recuperar a capacidade de atendimento e distribuição, a entrada de novos trabalhadores é fundamental para reequilibrar os sistemas de saúde e previdência, hoje pressionados por uma base ativa cada vez menor e mais envelhecida. Sem essa renovação, a missão social dos Correios fica seriamente comprometida.
Números que escancaram a crise
Os dados financeiros do terceiro trimestre de 2025 confirmam o agravamento acelerado da situação. Em apenas nove meses, o prejuízo acumulado ultrapassou R$ 6 bilhões. O patrimônio líquido tornou-se profundamente negativo, superando R$ 10 bilhões no vermelho, enquanto o endividamento total se aproxima de R$ 2 bilhões.
Diante desses números, a convocação imediata dos concursados deixa de ser uma estratégia de gestão e passa a representar a última alternativa concreta para evitar o colapso completo da estatal.
A responsabilidade é apenas da atual presidência?
A análise histórica mostra que a crise atual não nasceu de decisões recentes. Ela é fruto de políticas adotadas ao longo de muitos anos, cujos efeitos agora se manifestam de forma explosiva. Diferentemente de gestões anteriores, o atual presidente tem utilizado sua visibilidade institucional para defender a manutenção dos Correios como empresa pública e reconhecer o papel dos trabalhadores, o que influencia o debate público e sindical.
Isso não elimina, porém, problemas graves que persistem: novos desligamentos via PDV, fechamento de agências próprias e, principalmente, a manutenção da política de não contratação de concursados, mesmo após a realização de um concurso público válido por lei. Embora haja investimentos em frota, tecnologia e imagem institucional, além da recuperação parcial de direitos por meio de acordos coletivos, a recusa em recompor o efetivo permanece como o ponto mais sensível da atual gestão.
A empresa já sinalizou que só pretende tratar do concurso a partir de 2027, desperdiçando um prazo legal de dois anos após a homologação. Diante disso, cresce o questionamento: por que uma medida tão central para salvar a empresa não é priorizada? As forças favoráveis à privatização seguem exercendo influência decisiva? Nesse contexto, atribuir toda a responsabilidade ao atual presidente ignora o acúmulo histórico de decisões que plantaram a crise muito antes.
Alerta sobre governança e gestão
Reportagens recentes reforçam as preocupações. Investigações jornalísticas apontam o loteamento político de diretorias estratégicas, com indicações sem perfil técnico, além de problemas recorrentes em processos licitatórios. Entre 2019 e 2023, milhares de licitações tiveram apenas um concorrente ou sequer receberam propostas, o que elevou custos e comprometeu a eficiência da empresa.
Esses fatores ajudam a explicar por que a crise não é apenas operacional, mas também de governança.
A única saída viável: contratar agora
Diante do esvaziamento do quadro funcional, da sobrecarga extrema, do envelhecimento da força de trabalho e da explosão dos passivos atuariais — que já ultrapassam R$ 10 bilhões em saúde e previdência, além de bilhões em ações judiciais —, a convocação dos aprovados no concurso de 2024 precisa ocorrer com urgência e em escala suficiente.
A reposição mínima deve cobrir, ao menos, os cerca de 18 a 20 mil desligamentos acumulados com PDVs e PDIs até março de 2025. Sem isso, qualquer discurso sobre modernização tecnológica, automação, inteligência artificial ou reestruturação organizacional será inócuo. Falta gente para executar até as tarefas básicas.
Mais grave ainda: sem uma base jovem e numerosa de contribuintes ativos, os sistemas de saúde e previdência caminham para um colapso financeiro irreversível, já reconhecido nas demonstrações contábeis e nos pareceres dos auditores independentes.
A estratégia de redução de pessoal falhou sob todos os aspectos. Não gerou ganhos de produtividade, ampliou a terceirização, piorou a qualidade dos serviços e aprofundou o rombo financeiro. Criou passivos ocultos que agora ameaçam a continuidade da empresa.
Sem trabalhadores suficientes para atender, tratar e distribuir, não há plataforma digital, marketplace ou inovação que sustente os Correios. Nenhuma manobra contábil será capaz de ocultar por muito tempo um modelo que sacrifica seu presente e compromete seu futuro.
Assim, a única solução estrutural viável no curto, médio e longo prazo é o chamamento imediato e amplo dos concursados — inclusive do cadastro reserva —, nos moldes do que ocorreu em 2011, além da interrupção da expansão de agências franqueadas. Reverter a terceirização excessiva e fortalecer a rede própria não é apenas uma questão operacional, mas uma condição para preservar o caráter público, a sustentabilidade financeira e a função social dos Correios.
Sem essas medidas, qualquer debate sobre o futuro da empresa será meramente retórico. O risco concreto é que os Correios deixem de cumprir seu papel como serviço público essencial à soberania nacional e à cidadania brasileira.
✍️ Por Junior Solid
Colaborador: Alexandre M Jr. (Correios: O que você precisa saber sobre a crise)
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