Empresa alega dificuldades financeiras no STF, mas mantém incentivos para desligamentos voluntários; movimento sindical questionam garantias, riscos e coerência do PDV.
Os Correios anunciaram a abertura de um novo Plano de Desligamento Voluntário (PDV), com inscrições previstas para a primeira semana de fevereiro de 2026 e desligamentos programados até o fim de maio. O comunicado apresenta o programa como parte do chamado Plano de Reestruturação da empresa e afirma que a adesão deve ser feita de forma “planejada, segura e responsável”.
No entanto, o anúncio ocorre em meio a um cenário de conflitos jurídicos, disputas no Judiciário e alegações recentes de dificuldades financeiras, o que tem gerado forte preocupação e críticas no meio sindical.
O que diz o comunicado dos Correios
Segundo a empresa, o PDV 2026 é uma prorrogação excepcional do PDV 2025, mantendo o mesmo patamar de incentivo financeiro. Entre os principais pontos divulgados estão:
- A criação do Plano de Saúde Família, com mensalidades mais acessíveis e cobertura regional, voltado a empregados ativos, ex-empregados e familiares;
- Possibilidade de adesão por trabalhadores de qualquer idade, desde que não tenham completado 75 anos até a data do desligamento;
- Prioridade no desligamento para empregados impactados por ações de reestruturação;
- Manutenção dos requisitos mínimos:pelo menos 10 anos de efetivo exercício na empresa;
- no mínimo 36 meses de remuneração nos últimos 60 meses.
A empresa reforça que a participação é “voluntária” e afirma que todas as informações detalhadas estarão disponíveis no regulamento a ser publicado na intranet.
A contradição central: crise financeira ou capacidade de pagar PDV?
O principal ponto de crítica levantado pelo movimento sindical e trabalhadores está na contradição entre o discurso institucional e as ações recentes da empresa.
Após a assinatura do acórdão que envolveu os Correios, a empresa:
- solicitou prorrogação e parcelamento de precatórios, alegando dificuldades financeiras;
- recorreu ao Supremo Tribunal Federal (STF) afirmando que o acórdão prejudica financeiramente a empresa e compromete sua sustentabilidade.
Pouco tempo depois, anuncia um novo PDV, mantendo incentivos financeiros semelhantes aos do ano anterior.
A pergunta que emerge é direta e inevitável:
se o acórdão inviabiliza financeiramente os Correios, de onde virão os recursos para bancar um PDV?
Essa incoerência fragiliza o discurso apresentado no STF e levanta dúvidas legítimas sobre a real situação financeira da estatal.
PDV “voluntário”, mas com pressão estrutural
Embora o comunicado destaque o caráter voluntário da adesão, o próprio texto revela um elemento de pressão:
“Prioridade no desligamento para empregadas e empregados impactados por ações de reestruturação.”
Na prática, isso significa que trabalhadores cujas unidades estão sendo enxugadas, fundidas ou reorganizadas podem se sentir empurrados a aderir, sob risco de ficarem em ambientes cada vez mais precarizados.
Do ponto de vista sindical, o PDV deixa de ser apenas uma “opção pessoal” e passa a funcionar como instrumento de ajuste de pessoal, com impacto direto na organização do trabalho e nas condições das unidades.
O risco pouco discutido: e se a empresa alegar falta de recursos depois?
Entre trabalhadores da base, uma preocupação tem ganhado força:
qual é a garantia real de pagamento integral das verbas do PDV?
O comunicado não esclarece pontos fundamentais, como:
- existe dotação orçamentária específica para o PDV?
- há fundo segregado ou garantia jurídica do pagamento?
- o que acontece se, após os desligamentos, a empresa voltar a alegar dificuldades financeiras?
O receio é que a empresa conclua os desligamentos e, posteriormente, utilize o mesmo argumento de crise financeira já apresentado ao STF para postergar, parcelar ou discutir pagamentos.
Plano de Saúde Família: benefício ou estratégia de convencimento?
Outro ponto anunciado como avanço é o Plano de Saúde Família. No entanto, a proposta levanta questionamentos:
- cobertura apenas regional, não nacional;
- valores das mensalidades não foram divulgados;
- transferência gradual dos custos da saúde do vínculo ativo para o indivíduo desligado.
Para sindicatos, o plano pode funcionar mais como instrumento de convencimento do que como garantia efetiva de proteção à saúde no longo prazo.
Ampliação do público-alvo revela urgência
A abertura do PDV para trabalhadores de qualquer idade, mantendo apenas os critérios de tempo mínimo de empresa, também é vista como sinal de que os Correios buscam adesão em massa.
Isso indica que o objetivo central não é apenas atender quem está próximo da aposentadoria, mas reduzir rapidamente a folha de pagamento, aprofundando o processo de reestruturação.
Uma decisão que exige cautela
O anúncio do PDV ocorre em um momento sensível, marcado por:
- disputas judiciais no STF;
- questionamentos sobre o impacto financeiro de decisões trabalhistas;
- reestruturações internas e redução de pessoal.
Diante desse cenário, entidades sindicais alertam:
a decisão de aderir ao PDV não pode ser tomada apenas com base no discurso institucional, mas exige análise cuidadosa dos riscos, das garantias reais e do contexto político e financeiro da empresa.
A mesma empresa que afirma ao Supremo que decisões judiciais comprometem sua sustentabilidade é a que agora convida trabalhadores a se desligarem, sem apresentar garantias concretas de longo prazo.
✍️ Por Junior Solid
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