ADPF 323: como uma decisão do STF virou arma contra os direitos trabalhistas no Brasil

A ADPF 323 (Arguição de Descumprimento de Preceito Fundamental) é uma ação que tramita no Supremo Tribunal Federal (STF) e que proibiu a ultratividade dos acordos e convenções coletivas de trabalho.

Em termos simples:
quando um acordo coletivo vence, os direitos ali previstos deixam de valer automaticamente, caso não haja um novo acordo assinado.

Essa decisão mudou profundamente a relação entre trabalhadores, sindicatos e empresas no Brasil.

O que é ultratividade? 

Antes da ADPF 323, funcionava assim:

  • O acordo coletivo tinha prazo (ex: 1 ou 2 anos)
  • Mesmo após o vencimento, as cláusulas continuavam valendo
  • Isso garantia proteção mínima aos trabalhadores enquanto se negociava o novo acordo

Era uma regra de equilíbrio, porque impedia que a empresa usasse o fim do acordo como chantagem.

Com a ADPF 323, o STF passou a dizer:
acabou o acordo, acabam os direitos.

 Linha do tempo da ADPF 323 

2014 ───────────────► ADPF 323 é protocolada no STF
                      (questionando a Súmula 277 do TST)

2016 ───────────────► Gilmar Mendes concede LIMINAR
                      Suspende a ultratividade dos acordos

2017 ───────────────► Reforma Trabalhista
                      Consolida o fim da ultratividade na prática

2019 ───────────────► Governo Bolsonaro
                      Empresas passam a usar a ADPF como arma
                      (Correios recorrem ao STF)

2020 ───────────────► STF intervém em dissídios
                      Retirada de cláusulas históricas

2025/2026 ─────────► ADPF 323 segue sendo usada
                      contra acordos coletivos e direitos

Detalhe gravíssimo:

o mérito definitivo da ADPF 323 nunca foi concluído, mas a liminar segue produzindo efeitos reais até hoje.

Por que o STF decidiu contra a ultratividade?

Os principais argumentos usados foram:

  1. Não existe lei específica garantindo ultratividade
  2. A ultratividade “engessaria” a negociação
  3. A Constituição fala em acordo com prazo determinado

O problema é que essa visão ignora a desigualdade real entre capital e trabalho.

  • A empresa pode esperar
  • O trabalhador precisa comer, pagar aluguel, sobreviver

Isso transforma a negociação em imposição.

O impacto real da ADPF 323 na vida dos trabalhadores

A decisão inverteu completamente a lógica da negociação coletiva.

Antes da ADPF 323:

Negociava-se para avançar direitos

Depois da ADPF 323:

Negocia-se para não perder o que já existe

Na prática, as empresas passaram a:

  • Arrastar negociações propositalmente
  • Ameaçar retirada de cláusulas históricas
  • Enfraquecer greves e mobilizações

Isso é retirada de poder sindical.

A relação direta com os Correios e os dissídios coletivos

Nos Correios, os efeitos da ADPF 323 foram e seguem sendo devastadores.

A partir dela, a empresa passou a:

  • Questionar cláusulas históricas do ACT
  • Ameaçar plano de saúde, vales, adicionais e licenças
  • Judicializar negociações no STF, não no TST

Em 2019, sob o governo Bolsonaro, isso ficou escancarado:

  • O STF suspendeu cláusulas do acordo
  • Alegação de “grave lesão à economia”
  • Direitos viraram custo, não conquista

Esse mesmo roteiro jurídico se repete em 2025/2026.

Uma decisão jurídica com conteúdo político

A ADPF 323 não é neutra.

Ela se consolida:

  • Após o golpe de 2016
  • Durante a reforma trabalhista
  • Sob forte pressão do empresariado

É uma decisão que favorece o capital e fragiliza o trabalho, transformando direitos coletivos em mercadoria de negociação.

O que a ADPF 323 representa hoje?

A ADPF 323 representa:

  • Fim da segurança jurídica para o trabalhador
  • Enfraquecimento dos sindicatos
  • Negociação sob ameaça permanente
  • Retrocesso histórico nos direitos coletivos

Para os trabalhadores dos Correios e de outras categorias organizadas, ela é uma das principais armas jurídicas usadas contra o Acordo Coletivo de Trabalho.

Entender a ADPF 323 é fundamental para entender por que tantas conquistas passaram a ser atacadas nos últimos anos.

✍️ Por Junior Solid

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