Ciclo Vicioso nos Correios: prejuízo bilionário é crise recente ou resultado do desmonte iniciado em 2016?
A direção fala em “ciclo vicioso” para explicar o rombo de R$ 9,1 bilhões. Mas a crise começou agora - ou é consequência de anos de desinvestimento, retirada de direitos e tentativa de privatização?
Os Correios projetam um prejuízo recorde de R$ 9,1 bilhões em 2026 e atribuem a crise a um suposto “ciclo vicioso” operacional. No entanto, uma análise da linha do tempo revela que o enfraquecimento da estatal não surgiu do nada: ele se conecta a decisões políticas acumuladas desde 2016, passando pela retirada de direitos, ausência de concursos e tentativa de privatização durante os governos de Michel Temer e Jair Bolsonaro.
A direção dos Correios admite em documento interno que a estatal pode registrar um prejuízo recorde de R$ 9,1 bilhões em 2026. No mesmo relatório, a empresa utiliza a expressão “ciclo vicioso” para explicar a deterioração operacional e financeira.
Segundo a versão oficial, a lógica seria simples:
queda na qualidade → perda de clientes → redução de receita → cortes → piora do serviço → nova perda de mercado.
Mas essa explicação técnica responde à pergunta central que interessa aos trabalhadores?
Ou apenas descreve o problema sem apontar quando e por que ele começou?
O que a diretoria chama de “Ciclo Vicioso”
No documento da área econômico-financeira, a gestão argumenta que:
- A queda na qualidade operacional afastou clientes.
- O e-commerce passou a migrar para transportadoras privadas.
- A redução de receitas comprometeu investimentos.
- A empresa deixou de pagar cerca de R$ 700 milhões em tributos e fornecedores até setembro de 2025.
- Sem caixa, o serviço piora ainda mais.
A narrativa sugere um processo automático, quase inevitável.
Mas nenhum ciclo começa sozinho.
A pergunta que não aparece no relatório é: o que deu início a essa engrenagem?
Quando começaram os cortes estruturais
Para entender a crise atual, é preciso olhar a linha do tempo.
Durante o governo de Michel Temer, as estatais passaram por políticas de ajuste fiscal, contenção de despesas e redução de investimentos.
No governo de Jair Bolsonaro, a situação ganhou outro contorno: os Correios entraram oficialmente no programa de privatizações. O projeto foi aprovado na Câmara, mas não avançou no Senado.
Nesse período ocorreram:
- Retirada de mais de 50 cláusulas do Acordo Coletivo de Trabalho
- Redução drástica de direitos históricos
- Ausência de concursos públicos
- Enxugamento estrutural
- Ampliação de rotas e sobrecarga
O argumento sindical sempre foi claro:
a empresa começou a ser “preparada para venda”.
Lucro bilionário que não virou investimento
Um dos pontos mais sensíveis dessa discussão é o resultado de 2021, quando os Correios registraram lucro bilionário.
A questão que permanece é objetiva:
Se havia lucro, por que não houve modernização proporcional da frota, da tecnologia e dos Centros de Distribuição?
Enquanto direitos eram retirados e custos trabalhistas reduzidos, não se viu um plano robusto de modernização estrutural.
Essa lacuna é fundamental para compreender o cenário atual.
Porque o chamado “ciclo vicioso” não pode ser explicado apenas por queda de receita recente — ele envolve decisões estratégicas acumuladas.
Privatização frustrada, mas efeitos mantidos
Embora a privatização não tenha sido concluída, seus efeitos administrativos permaneceram.
Uma empresa preparada para ser vendida costuma:
- Reduzir custos operacionais
- Diminuir quadro funcional
- Cortar benefícios
- Valorizar ativos imobiliários
- Simplificar estrutura
Hoje, o plano anunciado pela direção inclui:
- PDV com meta de até 15 mil desligamentos até 2027
- Fechamento de cerca de 1.000 agências próprias
- Venda de 60 imóveis
Para os sindicatos, o receituário é semelhante ao utilizado durante a tentativa de privatização.
A disputa pelo mercado internacional
Outro fator citado pela gestão é a perda de competitividade no e-commerce.
Plataformas como Shopee, Shein e Mercado Livre ampliaram suas próprias estruturas logísticas e passaram a utilizar transportadoras privadas em larga escala.
Com a reorganização das remessas internacionais e mudanças tributárias recentes, o mercado ficou ainda mais competitivo.
O problema central não é apenas a concorrência.
É a ausência de reação estratégica equivalente por parte dos Correios:
- Falta de modernização tecnológica acelerada
- Infraestrutura defasada
- Baixo investimento em automação
- Estrutura de pessoal reduzida
Sem atualização, a estatal perde espaço — e isso retroalimenta o tal “ciclo”.
Quem paga a conta do prejuízo?
Enquanto a narrativa oficial fala em números bilionários, a realidade nas unidades é outra:
- Rotas ampliadas
- Acúmulo de distritos
- Sobrecarga física
- Pressão por metas
- Falta de reposição de pessoal
Agora, o plano de reestruturação mira novamente:
- Corte de trabalhadores
- Fechamento de agências
- Venda de patrimônio
A pergunta sindical é direta:
Se o problema é estrutural e histórico, por que a solução continua sendo cortar trabalhadores?
O que a atual gestão precisa responder
Se houve mudança de governo, por que a política de enxugamento continua?
Se o “ciclo vicioso” foi construído ao longo de anos de desinvestimento, a resposta não deveria ser um plano de reconstrução?
A crise financeira é real.
Mas ela não pode ser tratada como fenômeno espontâneo.
Ela é resultado de decisões políticas, estratégicas e administrativas acumuladas.
O ciclo começou antes do prejuízo
O debate não pode se limitar ao número de R$ 9,1 bilhões.
O verdadeiro debate é:
- Quando começou a perda estrutural?
- Por que o lucro não virou modernização?
- Por que o trabalhador continua sendo o primeiro alvo do ajuste?
Chamar de “ciclo vicioso” pode ser tecnicamente correto.
Mas ignorar a origem do ciclo é politicamente conveniente.
E é justamente essa origem que precisa estar no centro da discussão sindical.
✍️ Por Junior Solid
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