Correios mudam foco estratégico, abandonam cartas e fragilizam o serviço postal universal

A análise das demonstrações contábeis dos Correios ao longo da última década revela uma mudança profunda — e preocupante — na estratégia corporativa da empresa. A partir de 2016, a direção da ECT passou a redirecionar recursos operacionais, financeiros e humanos de forma sistemática para o segmento de encomendas, especialmente voltado ao comércio eletrônico.

Esse movimento envolveu expansão de infraestrutura logística, investimentos em marketing e reestruturação operacional para atender um mercado altamente concorrencial. Em contrapartida, o segmento de mensagens — que inclui cartas simples, registradas e produtos vinculados ao serviço postal universal — foi progressivamente relegado a segundo plano, com cortes de investimento, redução de efetivo e perda de prioridade operacional.

O resultado desse desbalanceamento estratégico foi a precarização crônica da entrega de correspondências, afetando diretamente a qualidade do serviço prestado à população e corroendo a credibilidade histórica dos Correios como empresa pública essencial.


A inversão do modelo de receita

Os números evidenciam com clareza essa mudança de foco. Em 2012, o segmento de mensagens ainda respondia por mais da metade da receita líquida operacional dos Correios, enquanto encomendas representavam 37%. Ao longo dos anos, essa relação se inverteu de forma acelerada.

Em 2018, as encomendas já ultrapassavam as mensagens. Em 2023, chegaram a 61% da receita, enquanto o segmento de mensagens caiu para apenas 26%. Em 2024, a tendência se aprofundou: encomendas passaram a representar 63% da receita, contra apenas 24% das mensagens.

Os dados mais recentes são ainda mais alarmantes. Nos nove primeiros meses de 2025, as encomendas já representam mais de 66% da receita, enquanto as mensagens seguem abaixo de 24%.


A aposta que não deu retorno

Apesar da concentração de esforços no setor de encomendas, os resultados estratégicos não correspondem às expectativas. Reportagens do UOL, publicadas em 15 de novembro, revelam que a participação de mercado dos Correios nesse segmento caiu drasticamente: de 52% em 2018 para apenas 26% em 2023.

Ou seja, mesmo priorizando o mercado concorrencial, a empresa perdeu espaço para operadores privados. A mesma reportagem aponta que a tabela de fretes dos Correios hoje só é competitiva em 11 estados, ficando de fora dos grandes centros consumidores.

Outro fator determinante foi a chamada taxa das blusinhas, que impactou fortemente o fluxo de encomendas internacionais. Empresas asiáticas como J&T e Anjun capturaram grande parte desse mercado, gerando um rombo estimado em R$ 1,2 bilhão apenas no primeiro semestre de 2025.

Nesse mesmo período, a receita líquida total dos Correios foi de R$ 8,185 bilhões, representando uma queda de 11,8% em relação a 2024. O serviço postal internacional, que já representou 21,9% da receita bruta, despencou para apenas 9,6%, impactado por mudanças regulatórias, concorrência acirrada e, principalmente, pela queda expressiva no número de trabalhadores.


O abandono do serviço postal universal

Enquanto a aposta nas encomendas se mostra estrategicamente fracassada, o serviço de correspondência tradicional — que historicamente sustentou o papel público e universal dos Correios — foi deliberadamente enfraquecido.

Relatos de trabalhadores indicam um desinteresse institucional evidente pelo segmento de cartas simples, mesmo sendo este um serviço de monopólio estatal e ainda financeiramente relevante. Uma carta comercial simples custa hoje cerca de R$ 3,70, valor que poderia contribuir significativamente para a sustentabilidade da empresa se houvesse investimento, regularidade e qualidade.

O processo de migração para o digital, que deveria ser gradual e natural, foi acelerado artificialmente por decisões institucionais, como a redução proposital do efetivo, o abandono da regularidade de entrega e a priorização absoluta das encomendas. Isso criou um ciclo vicioso: piora do serviço, queda da demanda, insatisfação dos usuários e fortalecimento do discurso privatista.


Exclusão digital e decisões sem debate público

O abandono do segmento de mensagens ocorre em um país marcado por profunda exclusão digital. Milhões de brasileiros, especialmente idosos, moradores de áreas rurais e populações de baixa renda, ainda dependem do serviço postal físico para acessar direitos, informações e serviços básicos.

Medidas como a DDA — Distribuição Domiciliar Alternada de cartas e cartas registradas, com entregas em dias alternados — foram implementadas sem consulta pública ou regulamentação clara. Na prática, essas decisões forçaram parte da população a migrar para meios digitais, inclusive em regiões de baixa conectividade, onde essa transição não ocorreria de forma espontânea.


Um projeto que favorece a privatização

Essa reorientação estratégica compromete não apenas a qualidade do serviço, mas o próprio caráter público dos Correios. Ao privilegiar o setor mais lucrativo e concorrencial, a empresa passa a operar com lógica de mercado dentro de uma estatal, enfraquecendo sua missão constitucional de universalizar o acesso à comunicação postal em todo o território nacional.

Ao mesmo tempo, o sucateamento do serviço de cartas alimenta a narrativa de ineficiência, reduz o apoio social à empresa e cria um ambiente favorável à privatização. Trata-se de uma escolha política e institucional que atende a interesses de mercado e possíveis compradores, em detrimento da função social dos Correios e dos direitos da população.


✍️ Por Junior Solid

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