A verdade sobre o trabalho nas empresas privadas de entrega: precarização, exploração e o preço pago pelo trabalhador
Por trás da promessa de ganhos altos e autonomia, o trabalho nas entregas privadas esconde jornadas desumanas, custos transferidos ao trabalhador e a negação sistemática de direitos históricos.
A realidade do trabalho nas empresas privadas de entrega está longe da propaganda vendida por plataformas e grandes varejistas. O que se apresenta como “oportunidade” e “liberdade” revela, na prática, um modelo de precarização extrema, baseado em jornadas exaustivas, metas abusivas e na transferência total dos riscos e custos para o trabalhador. É um sistema que lucra com a exploração e cobra um preço alto de quem vive do próprio esforço.
Nos últimos anos, as empresas privadas de entrega — especialmente plataformas digitais e grandes varejistas — se tornaram símbolo de modernidade. Mas, por trás dos slogans de “autonomia”, “flexibilidade” e “ganhos elevados”, esconde-se um cenário que lembra os piores períodos de exploração do passado. E, como sempre, quem paga a conta é o trabalhador.
O depoimento que circula nas redes, em que um entregador relata 150 entregas por dia, jornadas sem pausa e ameaças de não pagamento, não é exceção — é regra. A precarização virou modelo de negócios.
Jornadas exaustivas, metas impossíveis e pressão constante
O trabalhador privado nesse setor vive sob um ritmo que desafia qualquer limite humano:
- Jornadas que chegam a 10, 12 ou até 14 horas por dia.
- Trabalho de segunda a segunda, sem descanso.
- Pausas inexistentes: comer, beber água ou usar o banheiro vira luxo.
- Metas que, se não forem cumpridas, resultam em não pagamento do dia.
É o retrocesso travestido de inovação. A tecnologia que deveria libertar o trabalhador acabou servindo para apertar ainda mais o controle e aumentar a exploração.
Zero direitos: o trabalhador vira “parceiro” e perde tudo
O truque preferido das empresas é simples: transformar o funcionário em MEI, PJ ou “parceiro”. Na prática, isso significa:
- Sem férias
- Sem 13º
- Sem FGTS
- Sem INSS pago
- Sem descanso remunerado
- Sem proteção em caso de doença
- Sem estabilidade
Doença, acidente ou queda no ritmo? É descarte imediato. O trabalhador vira um número — substituível e sem valor.
Custos altíssimos: quando trabalhar vira prejuízo
A propaganda diz que o trabalhador “ganha bem”. Mas ninguém fala do que ele gasta:
- Combustível
- Troca de óleo
- Pneu
- Manutenção
- IPVA
- Seguro
- Multas
- Pedágio
Pesquisas mostram que entre 40% e 60% de toda a renda vai embora só para manter o veículo funcionando. E tem mais: rodar milhares de quilômetros por mês destrói qualquer carro ou moto. Em poucos meses, o veículo fica super desvalorizado.
Em muitos casos, o trabalhador “ganha dinheiro”… até perceber que perdeu o carro.
O sistema de pontuação e punição: o algoritmo como capataz
As plataformas criaram um novo tipo de supervisão: o algoritmo controlador. Ele decide:
- Quem recebe as melhores entregas
- Quem recebe as piores rotas
- Quem merece punição
- Quem será desligado sem explicação
Recusou muitas entregas? Leva penalidade. Questionou algo? Pode ser suspenso. Ficou doente? É substituído.
É o velho chicote, agora digital.
“Ganhar 12 mil por mês”? O mito perfeito para atrair novos explorados
A promessa de renda alta é a porta de entrada. Mas, isso é ilusão:
- O valor anunciado é faturamento, não lucro.
- Depois dos gastos, sobram valores menores do que um salário formal.
- Quem tenta viver só disso entra num ciclo de dívida, desgaste e adoecimento.
É o velho “conto do vigário” empresarial: mostrar a exceção para esconder a regra.
E onde os Correios entram nessa história?
O contraste é claro:
Correios (público):
- Direitos garantidos
- Jornada regulada
- Acordo coletivo
- Férias e 13º
- Proteção em caso de doença
- Estabilidade minimamente assegurada
- Serviço socialmente relevante
Privatizado/Plataformas:
- Metas sobre-humanas
- Sem proteção
- Custos nas costas do trabalhador
- Desvalorização do veículo
- Punições invisíveis
- Instabilidade total
Privatizar nunca foi sinônimo de modernizar; quase sempre é sinônimo de precarizar.
Um modelo que destrói o trabalhador - e beneficia apenas os donos
O que vemos hoje no setor privado de entregas é uma versão atualizada do trabalho escravo moderno: jornadas extensas, pouca remuneração real, custo alto e nenhum direito.
É o tipo de sistema que promete futuro, mas entrega desgaste; promete liberdade, mas amarra; promete renda, mas cria dívida.
Os trabalhadores precisam estar atentos — e o país precisa aprender com modelos que fracassam em todo o mundo quando o assunto é privatização e desregulamentação.
O progresso verdadeiro nunca existirá pisando na dignidade de quem trabalha.
✍️ Por Junior Solid
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