Correios anunciam reestruturação baseada em metas e desempenho; movimento sindical alertam para pressão e perda de direitos
Documento divulgado pela direção aposta no Acordo de Desempenho e Metas (ADM) e no endurecimento do GCR, enquanto trabalhadores temem sobrecarga, PDV e mais controle sem negociação coletiva.
Os Correios anunciaram um amplo processo de reestruturação interna ancorado no Acordo de Desempenho e Metas (ADM) e no fortalecimento da gestão por desempenho individual, atingindo diretamente cerca de 80 mil trabalhadores em todo o país. Apresentado como solução para a crise da empresa, o plano amplia a cobrança por resultados e transfere responsabilidades para a base operacional, enquanto sindicatos alertam para riscos de intensificação do trabalho, adoecimento da categoria e fragilização de direitos históricos.
A direção dos Correios divulgou, no dia 29 de janeiro de 2026, o documento intitulado “Correios em Reestruturação”, que apresenta o Acordo de Desempenho e Metas (ADM) como o principal instrumento para conduzir as mudanças internas da empresa ao longo de 2026, em alinhamento com o Plano Estratégico 2026–2030.
Segundo o comunicado oficial, o ADM organiza 153 ações distribuídas em seis eixos estratégicos, com metas, prazos e responsáveis definidos, alcançando todas as áreas da empresa e os cerca de 80 mil empregados. A proposta, de acordo com a gestão, é transformar a estratégia em “entregas reais”, com monitoramento permanente dos resultados.
No entanto, apesar do discurso institucional de modernização e eficiência, o conteúdo do documento tem gerado preocupação entre trabalhadores e entidades sindicais, que veem na reestruturação um avanço da gestão por metas, com impactos diretos sobre as condições de trabalho, a saúde dos empregados e os direitos históricos da categoria.
Os seis eixos da reestruturação dos Correios
O plano apresentado pela empresa está estruturado nos seguintes eixos:
Liquidez corrente
A gestão afirma que busca regularizar estoques, restabelecer serviços críticos e estabilizar a operação, com apoio de financiamento. O documento, porém, não detalha quais medidas práticas serão adotadas nem quais serão os impactos sociais dessa “estabilização”.
Eficiência operacional
Este é um dos pontos mais sensíveis do plano. A direção menciona a otimização da rede, revisão de roteirização, lançamento de Programa de Desligamento Voluntário (PDV), reavaliação da estrutura de cargos e salários e aumento da produtividade, inclusive com apoio do BNDES. Para o movimento sindical, esse conjunto de medidas costuma resultar em redução de pessoal, acúmulo de funções e intensificação do trabalho.
Gestão jurídica
O foco está no tratamento de passivos atuariais, previdenciários e judiciais, além da busca pela “sustentabilidade” do plano de saúde. Entidades representativas alertam que esse tipo de discurso frequentemente antecede restrições de direitos e aumento de custos para os trabalhadores, especialmente no Postal Saúde.
Universalização
Embora o documento reafirme o compromisso com a prestação do serviço em todo o território nacional, não há detalhamento sobre investimentos efetivos nas unidades deficitárias ou em regiões historicamente abandonadas.
Receitas adicionais
A empresa aposta na ampliação de parcerias, diversificação do portfólio (agro, marketplace, conta digital, Sebrae) e monetização de imóveis. Para o movimento sindical, essa estratégia reforça uma lógica de mercantilização da empresa pública, aproximando os Correios de práticas típicas do setor privado.
Estratégia, governança e compliance
Prevê metas unificadas, indicadores padronizados e acompanhamento rigoroso da execução. Na prática, significa mais controle gerencial e maior pressão sobre as áreas operacionais.
ADM e GCR: metas corporativas chegam ao trabalhador individual
O documento deixa claro que o ADM estará diretamente vinculado ao GCR (Gestão de Carreira e Resultados), cujo novo modelo passa a valer a partir de 2026. A avaliação de desempenho será composta por:
- 5 metas corporativas (30%)
- 1 meta setorial vinculada ao ADM (60%)
- Até 4 metas individuais (10%)
Com isso, 90% da avaliação do trabalhador ficará atrelada a metas definidas pela alta gestão, muitas vezes distantes da realidade das unidades operacionais, que enfrentam falta de pessoal, frota sucateada, infraestrutura precária e sobrecarga de trabalho.
Embora a empresa afirme que o novo modelo reduz a subjetividade e fortalece a responsabilização, o movimento sindical alertam que o sistema transfere para o empregado a responsabilidade por resultados que não dependem exclusivamente de seu esforço individual.
Mobilização defendida pela empresa não inclui participação sindical
O texto institucional utiliza termos como “mobilização”, “compromisso coletivo” e “mérito compartilhado”, mas não menciona, em nenhum momento:
- negociação com sindicatos;
- debate coletivo sobre metas;
- avaliação dos impactos sobre a saúde dos trabalhadores;
- limites para cobrança e pressão por resultados.
Para o movimento sindical, a mobilização proposta é apenas operacional, voltada ao cumprimento de metas e indicadores, sem espaço para participação democrática dos trabalhadores nas decisões estratégicas da empresa.
Críticas sindicais: reestruturação sem debate amplia riscos
Na avaliação do movimento sindical, a reestruturação apresentada pelos Correios não enfrenta as causas estruturais da crise da empresa, como a ausência de investimentos consistentes, a redução do quadro de pessoal ao longo dos anos, o sucateamento da frota e a interferência política na gestão.
Ao apostar quase exclusivamente na gestão por metas, a direção corre o risco de aprofundar o adoecimento da categoria, aumentar conflitos internos e fragilizar direitos conquistados historicamente por meio da luta coletiva.
O movimento sindical defendem que qualquer processo de reestruturação em uma empresa pública deve passar por debate amplo, negociação coletiva, valorização dos trabalhadores e fortalecimento do serviço postal público, e não pela simples importação de modelos de gestão do setor privado.
Reestruturação para quem?
O comunicado dos Correios reforça que a empresa busca um “novo patamar de excelência”. Para os trabalhadores, porém, a pergunta central permanece: excelência para quem?
Sem investimento, sem concurso público, sem valorização salarial e sem diálogo com a categoria, a reestruturação corre o risco de se transformar em mais um processo de transferência de responsabilidades para quem está na base, enquanto os problemas estruturais seguem sem solução.
✍️ Por Junior Solid
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