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Correios e a falsa neutralidade da “modernização”: o que o discurso da reestruturação esconde

Artigo da presidência aposta na narrativa da inevitabilidade, mas silencia sobre financiamento público, negociação coletiva e o papel dos trabalhadores na integração nacional.

O presidente dos Correios, Emmanoel Rondon, usou o espaço do Poder360 para defender o Plano de Reestruturação da estatal como resposta inevitável à “transformação do mundo”. Mas, por trás do discurso técnico sobre modernização e sustentabilidade, o texto evita o ponto central do debate: o impacto da reestruturação sobre direitos, empregos e a participação dos trabalhadores.

Artigo do presidente da empresa aposta em consenso técnico, mas evita debate sobre direitos, financiamento público e impacto na base

O presidente dos Correios, Emmanoel Rondon, publicou no Poder360 um artigo em que defende o Plano de Reestruturação da estatal como resposta aos desafios da digitalização e das transformações logísticas globais. Sob o título “Correios: conectar o Brasil em um mundo em transformação”, o texto busca apresentar a reestruturação como inevitável, técnica e responsável.

Mas, ao analisar o conteúdo com atenção, fica evidente que o artigo cumpre um papel político: construir legitimidade para mudanças profundas sem enfrentar os conflitos sociais que elas produzem, especialmente sobre trabalhadores e trabalhadoras da empresa.

Correios: empresa pública ou problema de custo?

O texto reconhece corretamente que os Correios têm uma função que vai além do mercado. A presença da empresa em todos os 5.570 municípios, muitas vezes como única representação física do Estado, é destacada como elemento estratégico para a integração nacional, a soberania e o desenvolvimento.

No entanto, esse reconhecimento dura pouco.

Na sequência, a função social passa a ser tratada como um desafio econômico, quase um obstáculo a ser administrado. A universalização do serviço deixa de ser apresentada como dever do Estado e passa a ser enquadrada como um custo que precisa “caber” em um modelo sustentável.

É justamente aí que mora a principal contradição do texto:

  • defende-se a integração nacional, mas sem discutir quem deve financiá-la;
  • valoriza-se a presença nos rincões, mas sem garantir proteção à força de trabalho que sustenta essa presença.

Comparações internacionais que escondem o essencial

Para reforçar sua tese, Emmanoel Rondon cita experiências internacionais, como Estados Unidos, França, Itália, China e Índia. Segundo o artigo, todos esses países enfrentam dilemas semelhantes e buscam modernizar seus serviços postais.

O que o texto não diz é fundamental.

Em vários desses países, o serviço postal:

  • recebe subsídios diretos do Estado;
  • não é cobrado a gerar lucro;
  • é tratado como infraestrutura estratégica, assim como energia ou transporte.

Ou seja, a experiência internacional não aponta para cortes de direitos como solução, mas para decisão política de financiamento público. Ao omitir esse ponto, o artigo utiliza exemplos reais para justificar conclusões enviesadas.

Plano de Reestruturação: linguagem suave, efeitos conhecidos

Quando aborda diretamente o Plano de Reestruturação dos Correios, o presidente recorre ao vocabulário clássico da gestão empresarial:

  • “revisão de custos”
  • “modernização da governança”
  • “revisão de estruturas administrativas”
  • “decisões difíceis”

Esse tipo de linguagem não é nova para os trabalhadores dos Correios. Historicamente, ela costuma significar:

  • fechamento de unidades;
  • centralização de serviços;
  • redução de quadros;
  • aumento de sobrecarga;
  • precarização das condições de trabalho.

O texto não menciona:

  • negociação coletiva;
  • participação dos sindicatos;
  • garantias de manutenção de direitos;
  • impacto direto sobre os empregos.

A ausência desses temas não é casual. Ela revela uma visão de reestruturação de cima para baixo, em que os trabalhadores aparecem apenas como executores, não como sujeitos do processo.

Soberania logística sem valorização do trabalho?

Um dos argumentos centrais do artigo é que o futuro dos Correios envolve soberania nacional. Essa afirmação é correta, mas incompleta.

Não existe soberania logística sem:

  • trabalhadores valorizados;
  • estabilidade funcional;
  • condições dignas de trabalho;
  • participação democrática nas decisões.

Modernizar sem ouvir a base não é inovação - é imposição.
Integrar o país fragilizando quem faz a integração não é projeto de desenvolvimento - é contradição.

Ao final do texto, há uma homenagem simbólica a carteiros e carteiras. Mas ela não se traduz em compromissos concretos com direitos, carreira, saúde ou proteção social.

O que está em jogo de fato

O artigo de Emmanoel Rondon não é apenas informativo. Ele atua para:

  1. Apresentar a reestruturação como inevitável;
  2. Reduzir um debate político a uma questão técnica;
  3. Preparar a opinião pública para medidas impopulares;
  4. Esvaziar o papel dos trabalhadores e de suas entidades representativas.

Para o movimento sindical, o alerta é claro:
quando a “modernização” não vem acompanhada de participação, transparência e garantias, ela tende a recair sobre quem está na base.

Defender os Correios públicos, integrados e estratégicos não é negar mudanças.
É exigir que qualquer transformação:

  • respeite direitos;
  • preserve empregos;
  • reconheça o trabalho como eixo central da empresa.

Sem isso, o discurso de futuro corre o risco de repetir um velho roteiro: ajustes para os trabalhadores, proteção para a gestão e silêncio sobre o papel do Estado.

✍️ Por Junior Solid

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